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Sunday, December 02, 2007

L.

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
[..]
Às vezes tu dizias: os teus olhos são como peixes verdes.
E eu acreditava.
[...]
Mas isso era no tempo dos segredos,
[...]
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Eugénio de Andrade

Já não sei se sei quem és ou no que te tornaste. Sei que das últimas vezes éramos um vazio, já não havia mundos para onde nos perdermos. Percebo que é injusto dizer que já não te quero (ver) mais. Antes eras o meu futuro Freddy Eynsford-Hill, mas agora olho para ti e o passado já não significa nada. Sim, ainda tens os mesmos traços, ainda me falas da mesma forma e ainda me chamas por aquele nome. Mas o que tínhamos antes não chega, é uma concha vazia. Será que não reparas? Não achas estranho? Porque é que ainda escreves sobre mim? Porque é que as tuas palavras continuam as mesmas? Porquê depois de tantos anos? Juro que não percebo o que se passa aí dentro... O que o que é eu ainda sou para ti, afinal? Tu és apenas uma memória, uma fotografia que ficou manchada pelas últimas vezes que te vi. É pena... podíamos voltar a ser tanto. Não te peço que venhas montado num cavalo branco. Vem apenas. Vamos tomar café. Talvez ainda nos possamos reencontrar de verdade.

1 comment:

xary said...

este poema passou a fazer tanto (mais) sentido ultimamente...

*suspiro* oh well.

os mundos alteram-se e nós com eles. de repente a rotina de sempre deixou de o ser. há que aprender novos hábitos, conhecer novas caras, limpar da memória tudo o que nos dizia qualquer coisa mais. e depois há esses mundos que também nos diziam tanto mas que nunca chegámos realmente a compreender. e essa é a unica verdade constante de toda a história.

beijos *