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Friday, April 23, 2010

Us overthinkers

"Well, I mean, a tie for God's sake! I wasted half an hour of my life anguishing about... I mean, how trivial can you get?"

Alexandra asked me why I had found it so difficult to decide between the two ties.

"I thought, if I wore the plain dark blue one you would take it as a sign that I was depressed, or rather as a sign that I was giving in to my depression, instead of fighting it. But when I put on the bright one, I thought you would take it as a sign that I'd got over my depression, but I havent. It seemed to me that whichever tie I wore would be a kind of lie." Alexandra smiled, and I experienced that deceptive lift of the spirits that often comes in therapy when you give a neat answer, like a clever kid in school.

"You could have dispensed with a tie altogether."

"I considered that. But I always wear a tie to these sessions. It's an old habit. It's how I was brought up: always dress properly when you're going to the doctor's. If Ii suddenly stopped wearing a tie you might think it signified something - disrespect, dissactisfaction - and I'm not dissactisfied. Well, only with myself."

Therapy

Wednesday, October 28, 2009

Love is a many splendored thing

- Posso dizer-te uma coisa?

- Claro. - Mário apertou-lhe levemente o braço.

Tommy disse, num murmúrio quase inaudível:

- Amo-te.

Salto mortal, Marion Zimmer Bradley

Monday, October 26, 2009

Yep, I remember this. And I miss you.

Naquele momento Tommy poderia ter rebentado, tantas eram as emoções a fervilhar dentro de si. Era um deles. Era ali o seu lugar. Toda a sua vida aprecia ter-se concentrado numa paixão mais violenta, mais pura e mais intensa que qualquer outra coisa que ele tivesse experimentado até então, ou que viesse a experimentar depois. Voltou a olhar para Mário e sorriu, a rebentar de felicidade. Desejou ser capaz de pensar em qualquer coisa adequada para dizer. Qualquer coisa que fizesse Mário perceber o que estavaa sentir. Mas não existe forma de se expressar sentimentos assim.
Salto mortal, Marion Zimmer Bradley

Tuesday, September 29, 2009

Nakedness

A nudez da mulher negra, contudo, me conduzia ao meu próprio corpo. Pensando no modo como via o meu corpo concluí: eu não sabia estar nua. E dei conta: o que me cobria não era tanto o vestuário mas a vergonha. Era assim desde Eva, desde o pecado. Para mim, África não era um continente. Era o medo da minha própria sensualidade. Uma coisa parecia certa: se queria reconquistar Marcelo, precisava de deixar África emergir dentro de mim. Precisava de fazer nascer, em mim, a minha nudez africana.
Jerusalém, Mia Couto

Monday, September 28, 2009

Re-birth

Porque eu preciso tanto de nascer! De nascer outra, longe de mim, longe do meu tempo. Estou exausta, Marcelo. Exausta, mas não vazia. Para se estar vazia é preciso ter dentro. E eu perdi a minha interioridade.
Jerusalém, Mia Couto

Sunday, September 27, 2009

Hoje foi assim

Não chegamos realmente a viver durante a maior parte da nossa vida. Desperdiçamo-nos numa espraiada letargia a que, para nosso próprio engano e consolo, chamamos existência. No resto, vamos vagalumeando, acesos apenas por breves intermitências.

Uma vida inteira pode ser virada do avesso num só dia por uma dessas intermitências.

Jerusalém, Mia Couto

Friday, September 04, 2009

As pequenas coisas que nos consomem...

Desde que entrou no Camaro, Thomas, dez anos, repete, como sempre: «Onde vamos, papá?»

A princípio, respondo: «Vamos para casa.»

Um minuto depois, com a mesma candura, repete a pergunta, não fixa. À décima vez de «Onde vamos, papá?» já não respondo...

Nem eu já sei lá muito bem onde vamos, meu pobre Thomas.

Vamos mergulhar de cabeça. Vamos de encontro a uma parede.

Um filho deficiente, e depois dois. Porque não três...

Não esperava uma coisa destas.

Onde vamos, papá?

Vamos entrar na auto-estrada, em contramão.

Vamos para o Alasca. Vamos fazer festas aos ursos. E ser comidos por eles.

Vamos aos cogumelos. Vamos apanhar amanitas falóides e fazer uma magnífica omeleta.

Vamos à piscina, vamos saltar da prancha mais alta, mas com ela vazia.

Onde vamos papá?

Uma leitura angustiantemente verdadeira

[...]

Agora que Mathieu foi à procura da bola num sítio onde jamais poderemos ajudá-lo a encontrá-la, agora que Thomas, que continua na Terra, anda cada vez mais nas nuvens, vou, apesar de tudo, oferecer-vos um livro. Um livro que escrevi para vocês. Para que não sejam esquecidos, para que não sejam apenas uma fotografia num cartão de invalidez. Para escrever coisas que nunca disse. Remorsos talvez. Não fui um bom pai. muitas vezes, não vos suportava, era difícil gostar de vocês. Convosco, era preciso uma paciência de santo, e eu não sou nenhum santo.

Onde vamos papá?

Thursday, August 20, 2009

Isto promete...

Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.
Jerusalém, Mia Couto

Thursday, May 28, 2009

Castaway

Ser um náufrago é ser um ponto perpetuamente no centro de um círculo. Por mais coisas que pareçam mudar - o mar pode passar do murmúrio à raiva, o céu podia ir de um azul fresco para o branco ofuscante e o negro mais carregado -, a geometria nunca muda. O nosso olhar é sempre um raio. A circunferência nunca é grande. Na verdade, os círculos multiplicam-se. Ser um náufrago é ser apanhado num angustiante bailado de círculos. Estamos no centro de um círculo, enquanto por cima de nós dois círculos opostos giram. O Sol atormenta-nos como uma multidão, uma multidão ruidosa e invasora que nos faz querer esconder-nos. A Lua atormenta-nos, lembrando-nos silenciosamente a nossa solidão; abrimos muito os olhos para escapar à solidão. Quando olhamos para cima, por vezes interrogamo-nos se no centro de uma tempestade solar, se no meio do Mar da Tranquilidade, não haverá outro como nós também a olhar, também aprisionado pela geometria, também a lutar contra o medo, a raiva, a loucura, a desesperança, a apatia.
A vida de Pi, Yann Martel

Wednesday, May 27, 2009

Hardships of faith

Praticava rituais religiosos que adaptava às circunstâncias [...] Eles traziam-me conforto, isso é verdade. Mas era difícil, Oh, era difícil. A fé em Deus é uma abertura, um desabafo, uma profunda confiança, um acto livre de amor - mas por vezes era tão difícil amar. Por vezes, o meu coração afundava-se tão depressa na raiva, na desolação e no cansaço, que eu tinha medo que ele mergulhasse até mesmo ao fundo do Pacífico e eu não fosse capaz de o trazer à superfície.

Em tais momentos tentava elevar-me. Tocava no turbante que tinha feito com os restos da minha camisa e dizia em voz alta: "ISTO É O CHAPÉU DE DEUS!"

Batia nas minas calças e dizia em voz alta: "ISTO SÃO AS CALÇAS DE DEUS!"

Apontava para Richard Parker e dizia em voz alta: "ISTO É O GATO DE DEUS!"

Apontava para o barco salva-vidas e dia em voz alta: "ISTO É A ARCA DE DEUS!"

Abria muito as mãos e dizia em voz alta: "ESTAS SÃO AS VASTAS JEIRAS DE DEUS!"

Apontava para o céu e dizia em voz alta: "ISTO É O OUVIDO DE DEUS!"

E deste modo lembrava a mim mesmo a Criação e o meu lugar nela.

Mas o chapéu de Deus estava sempre a desmanchar-se. As calças de Deus caíam aos bocados. O gato de Deus era um perigo constante. A arca de Deus era uma prisão. As vastas jeiras de Deus estavam a matar-me. O ouvido de Deus não parecia ouvir-me.

O desespero era um pesado negrume que não deixava entrar nem sair nenhuma luz. Era um inferno impossível de exprimir. Agradeço a Deus por ele ter sempre passado. Um cardume de peixes aparecia à volta da rede ou um nó precisava de ser refeito. Ou eu pensava na minha família, como eles tinham sido poupados àquela terrível agonia. O negrume agitava-se e finalmente desaparecia, e Deus permanecia, um ponto brilhante de luz no meu coração. E eu continuava a amar.

A vida de Pi, Yann Martel

Saturday, May 23, 2009

A vida de Pi - Time

A minha história começou num dia do calendário - 2 de Junho de 1977 - e terminou num dia do calendário - 14 de Fevereiro de 1978 -, mas entre os dois não houve calendário. Não contei os dias ou as semanas ou os meses. O tempo é uma ilusão que nos põe ansiosos. Eu sobrevivi porque me esqueci até da noção de tempo.
Yann Martel

Monday, April 27, 2009

Crying

- Eu não estou a chorar - disse eu zangada, aborrecida por ter perdido facilmente o controlo de mim própria. De qualquer modo, não poderia chorar, mesmo que quisesse. Na nossa espécie, as lágrimas parecem amontoar-se, amontoar-se dentro de nós e nunca saem; um oceano de lágrimas inundando as profundezas do coração.
A filha da profecia

Wednesday, April 08, 2009

Happiness upon us

Também por causa disso combatemos - pela felicidade que ainda não sabemos quando nem como virá. Mas sabemos que, um dia, chegará.
O regresso, Bernhard Schlink

Monday, March 09, 2009

Self-destruct button

I know not what to call this, nor will I urge that it is a secret overruling decree that hurries us on to be the instruments of our own destruction, even though it be before us, and that we rush upon it with out eyes open.
Robinson Crusoe

Friday, February 27, 2009

Pointing fingers

Revisão! Rever o passado! Nós, os estudantes do seminário, víamo-nos como os pioneiros da revisão do passado. Queríamos abrir as janelas, deixar entrar o ar, o vento que finalmente faria redemoinhar o pó que a sociedade deixara acumular sobre os horrores do passado. Iríamos zelar para que se pudesse respirar e ver.

[...]

Parecia-nos evidente que teria de haver condenações. E também achávamos claro que só aparentemente se tratava do julgamento de um qualquer guarda ou esbirro de um campo de concentração. Quem estava a ser julgada naquele tribunal era a geração que se serviu dos guardas e dos esbirros, ou que não os impediu, ou que pelo menos não os marginalizou como deveria ter feito depois de 1945. E o nosso processo de revisão e esclarecimento pretendia ser a condenação dessa geração à vergonha eterna.
O leitor, Bernhard Schlink

Thursday, February 26, 2009

O leitor - Sexy is an attitude

Parecia, sobretudo, que se recolhera no interior do seu corpo, que o entregara a si mesmo e ao seu próprio ritmo pausado, indiferente a alguma ordem do cérebro, e que esquecera o mundo exterior. Foi esse mesmo esquecimento do mundo que eu vi na atitude e nos movimentos ao calçar as meias. Mas nisso não era rude, tinha gestos fluidos, graciosos, sedutores; uma sedução que não é seios e nádegas e pernas, mas sim o convite para esquecer o mundo dentro do corpo.
O leitor, Bernhard Schlink

Wednesday, February 25, 2009

O leitor - Aparências

Ela devia estar totalmente esgotada. Não lutava apenas no julgamento. Lutava sempre, e sempre tinha lutado, não para mostrar aos outros do que era capaz mas para esconder aquilo que não era capaz. Uma vida cujos avanços consistiam em enérgicas retiradas e cujas vitórias eram ocultas derrotas.
O leitor, Bernhard Schlink

Friday, November 07, 2008

Pelo menos as obras obrigatórias são giras

A obra tratava de aparelhos de ginástica. O autor descrevia exaustivamente mecanismos que ele próprio imaginara e que permitiam realizar os mais diversos exercícios. A um deles chamou cavalo, a outro trave, a um outro boque.
O tipo não regula bem, comentou Gauss, e, dito isto, abriu a janela e deitou fora o livro.
Era meu, exclamou Eugen.
Quero lá saber, respondeu Gauss, adormeceu e só acordou quando ao fim da tarde pararam no posto fronteiriço para mudar de cavalos.
A medida do mundo

Wednesday, September 24, 2008

Hoje não é noite para romantismos...

... penso para mim enquanto beberico a minha caneca de chá e mergulho novamente Equador adentro. Não, hoje é noite para trabalhar e para espreguiçar por páginas de literatura inexplorada. De correr quilómetros de palavras e ainda me saber a pouco. É noite de encher o silêncio de uma televisão desligada com um livro aberto de par em par. Mas não é noite de torturar estúpida e desnecessáriamente o coração. Não, hoje não...