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Tuesday, January 31, 2006

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tinhamos tanto para dar um ao outro;
era se como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são como peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora te digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E ja disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Eugénio de Andrade

NB: E viva a poesia portuguesa....

6 comments:

marina said...

muito lindo...
"quanto mais te dava mais tinha para te dar." tocou-me... e esta também "E eu acreditava.Acreditava,porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis."

Mas isto sou eu, um estúpido ser humano sentimentalóide!! LOL

achei lindo mesmo! vai ficar na minha lista!

:)************

Rogério said...

é pá. lindo... =)

espero k nunca tenhamos que viver com as "algibeiras" vazias. precisamos de algo para partilhar, de algo k nos torne necessários, e principalmente amados. n podemos "gastar as palavras na rua", ter algo sempre para dizer, mesmo k seja uma palermice. tudo é possível se nós kerermos. se n kisermos, as coisas n vêm até nos. mas sim, as palavras gastam-se, a nossa vida n. se kisermos, claro.

bjs ************* =)

xary said...

viva a poesia portuguesa, viva!

um dos poemas que mais me tocam. embora hajam muitos mas a mágoa do ontem no hoje presente neste poema ultrapassa tudo.

boa escolha, manata! :D

beijo grande*

Martinha said...

adoro especialmente este poema porque ilustrou a despedida de uma pessoa que deixou de ser a minha vida. o adeus é dificil mas quando tudo se gastou é mais que urgente.

obrigado por lembrares ;)

beijinhos

sancie said...

Ah e tal, criei um blog e n disse nada à sancie :P

*amua a um canto enquanto olha disfarçadamente por cima do ombro*

Well, I'll just have to be the bigger person and forget all about that *rolls eyes*

Hmmm, não sou grande fã de Eugénio Andrade (grandes traumas, nem queiram saber...), mas o poema é muito bonito.

Beijos!!!!******

sancie (also known as Queen of the Universe and whatnot) ;)

Anonymous said...

Obrigado por Blog intiresny