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Saturday, December 02, 2006

Regresso a casa

Acordo para uma realidade diferente. Uma casa diferente. Duas semanas depois ele chega ao lar. E eu não sinto nada, pelo menos nada do que devia sentir. O coração é um poço vazio e tudo me parece um filme a preto e branco, sem som. Sem sentido. Sem sentimento. Não, não tive saudades, nem estou feliz pelo seu regresso. Sinto-me mal por isso, mas é mesmo assim! Acabou-se a rainha do comando e as noitadas na sala entre sebentas e episódios da Buffy ou Friends. Fim ao comer no sofá e ao ler na cadeira de baloiço sem interrupções... Não há forma de explicar isto sem ser julgada. Sou uma má filha? Talvez. Provavelmente. Mas no fundo sinto e sei que isto é apenas o peso das nossas divergências e o meu desejo de liberdade. Tento acreditar que é orgânico, inevitável e por isso perfeitamente desculpável da minha parte. Afinal é normal que aos vinte anos já queira ter o meu espaço (por inteiro, todas as assoalhadas), certo? E também que sejamos diferentes, mesmo ao ponto de a convivência ser, por vezes, um grande fardo. Aquelas pequenas coisas que corroem. Sim, ninguém é perfeito - mas também porque é que se parte do pressuposto que vou viver sempre acompanhada?? (Uns tempos sozinha sabiam bem. Desinfectar-me dos hábitos de uns e preparar-me para os de outros.) Além disso já são muitos anos com os mesmos hábitos!
O nosso problema é que essas "pequenas coisas" afastaram-nos. A forma como ocupo o meu tempo livre, os meus gostos, os meus interesses, os meus hábitos são tudo coisas que nos afastam. E não sou só eu - somos os dois; tu porque fazes de tudo isto uma piada ou uma regra que naturalmente me contraria; eu porque me deixas rabugenta e intolerante e apartir daí nada de bom pode surgir. E por vezes é tão pequenino que chega a ser absurdo! Como um dvd ou um copo que deixo na mesa de café à noite. Irrita-te sempre vê-los lá de manhã (sempre foste uma morning person, ao contrário de mim). Mas eu sou assim - faço uma confusão durante o dia e só arrumo no dia seguinte depois do pequeno-almoço. E o que tem de tão grave? Eu arrumo sempre, mas depois do pequeno-almoço. Mas já não vai a tempo, já houve repreensão. Ou as séries com a audiência a rir - para ti insuportáveis. É impossível ver televisão contigo! Deixei de tentar. E por tudo isto estas duas semanas souberam a pouco. Não apenas porque pude fazer tudo o que queria, mas porque pude ser natural, sem que me contrariasses os tiques ou fizesses observações. Hoje voltei a sentir-me como um animal numa jaula...

2 comments:

sancie said...

It's cruel indeed for one to taste such liberty and then to see it all taken back again.

it's unfair too.

it's crueler than never to have tasted it at all.

Just be a little more patient. you're closer and closer to have a home of your own. granted, probably not close enough, but you've been farther away from it.

;)****************

xary said...

the queen was thrown off her throne ;)

realmente deve ter um sabor muito cruel, a do regresso do poder patriarcal a casa. de repente os cantinhos aos quais expandimos a nossa maneira de ser, as nossas coisinhas, tornam a ficar outra vez pequeninos. há uma voz acima da nossa que diz o que se deve ou não fazer, de acordo com o que lhe apetece. but then again, things are how they are at this point in our lives.
quando outra fase começar, talvez possas expandir a tua pessoa a mais divisões sem a chatice de que alguém possa vir e retirar-te o poder que adquiriste com tanto prazer.

(patience)

beijo grande * :)