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Wednesday, March 29, 2006

A Débil

Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada,
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso,
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura,
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto,
Que me tornas prestante, bom, saudável.

"Ela aí vem!" disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, - talvez não o suspeites! -
Esse vestido simples, sem enfeites
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca.
Trsite eu saí. Doía-me a cabeça.
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava as exéquias dum monarca.

Adorável! Tu muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

Sorriam, nos seus trens, os titulares;
E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
A tua boa mãe, que te ama tanto,
Que não te morrerá sem te casares!

Soberbo dia! Impunham-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma família, um ninho de sossego,
Desejava beijar sobre o teu peito.

Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esbelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E altos funcionários da nação.

"Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!"
De repente, paraste embaraçada
Ao pé de um numeroso ajuntamento.

E eu, que urdia estes fáceis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.

E foi, então, que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti que és ténue, dócil, recolhida,
Eu que sou hábil, prático, viril.

Cesário Verde

Um dos, senão o meu preferido de Cesário Verde. Se parece bonito aqui, deviam ver analisado numa aula... É uma pena não ter mais disto agora (as meninas de português ainda me vão cair em cima por causa disto!). Mas é verdade, já com as obras acontece a mesma coisa. Claro que é uma chatice do pior ter que ler um livro por obrigação e com data limite, mas a maioria das vezes é fantástico aprofundar e/ou redescobrir a obra em questão...

2 comments:

sancie said...

Hmmm, não sou grande fã de cesário verde, mas gostei do poema. muito giro


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xary said...

cesário verde tem os seus dias. mas não me posso esquecer que foi influência importante para Pessoa (so they say) portanto, um viva para ele.

há poemas que têm tanto por trás. e há análises dos mesmos que se tornam uma caixinha de surpresas :)

já há algum tempo que não lia este poema hehe. matei saudades ^^

beijo grande*