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Wednesday, August 30, 2006

Elogios que não veem

Todos os anos chego aqui com as mesmas esperanças. Todos os anos tudo cai por terra. E a cada ano que passa a desilusão tem um sabor mais amargo. É indiferente se como uma salada ou se vou ao McDonalds - ninguém dá pela diferença. Coca-cola trocada por sumos naturais - nada! Silêncio. É injusto. Aos olhos desta gente ainda sou a criança gorda que assaltava o jarro das bolachas a cada quinze minutos.

Mais tarde, quando fazia a peregrinação por entre bancos e conservatórias (como é costume aqui) apercebi-me: se calhar ser gorda é o meu elogio. Como um legado que eles não podem deixar senão a mim. Pensando bem, tanto os filhos, como as noras, como as netas, tudo saiu magrinho! Até a promessa do sobrinho-maravilha se esvaiu desde que ele se tornou vegetariano. Talvez de certa forma eu seja a herdeira dos genes gordos, embora todos saibamos que o laço de parentesco que os une está tão remoto que tal nunca seria possível na realidade. Se calhar o comentário distorcido ("Ah! isso é porque és gordinha como a prima!" - irrita-me quando as pessoas se referem a si próprias na terceira pessoa!) é mesmo um elogio ternurento.

Mas é um elogio que eu dispenso. Não quero esse rótulo porque me prende ao passado. Porque isso mostra-me como uma criatura vulnerável, triste, meia-adormecida no mundo, insegura e apagada e embora tudo isso seja verdade no passado, hoje seria uma imagem distorcida do presente. Não é que eu deseje renegar o passado, eu só não quero ser o passado. Já não sou uma menina gorda. Quanto muito sou uma rapariga gorda (apesar de o adjectivo ser já muito forte para mim! =D ). E isso faz toda a diferença.

4 comments:

Sari said...

no oto dia ia a sara na rua e a tia dela faz a seguinte comparaçao: "ai filha tas tão gorda...! olha lá(par ao marido, meu tio), parece a prima dela!"

a minha prima ta gravida duns belos 7/8meses...

lol

faz tu elogios a ti propria joana!;)

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xary said...

já não somos muito do nosso passado mas há pessoas que ainda continuam lá presas. e os elogios, aqueles que de elogiosos não têm nada, que antes magoavam e faziam chorar baixinho a um canto, esses permanecem. como uma estúpida tradição.

pego também no que a sari disse porque foi o conselhor perfeito - faz elogios a ti própria :)

beijo grande*

sancie said...

I say, screw them!

What do they know, anyway?

You just remind yourself that you are a beautiful, confident, well-adjusted young woman who can live very well without the opinion of ignorant people!

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marina said...

damn right! não vivemos dos outros.

"só contigo te salvas ou condenas. os teus amigos, mesmo os mais chegados, não estão contigo na hora grave de seres (...)"

vergílio ferreira :)

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